Círio de Coimbra

15 Ago 2024 | Coimbra Urbana

Damos conta de uma tradição que se mantêm-se viva nas gentes de Coimbra, particularmente da Ribeira de Frades. Todos os anos, no dia 15 de Agosto, os romeiros dirigem-se ao Mosteiro de Santa Cruz a fim de ir buscar o Círio depois da missa das 8:30 e levam-no de volta ao final do dia, pelas 19:00, em carros enfeitados.

Com o objetivo de caracterizar melhor esta tradição, transcrevemos o texto da autoria de João Costa:

Abordar o Círio de Coimbra implica, desde o início, uma responsabilidade singular em relação à identidade e memória da religiosidade de um povo num território plural e contínuo no baixo Mondego.

No esforço de identificar referências históricas deste Círio, dedicado a Nossa Senhora da Nazaré, é possível encontrar menções a este evento já no ano de 1628.

O Círio de Coimbra esteve sempre sob alçada do Real Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra que detinha numa das propriedades do seu isento, Nazareth da Ribeira, a Ermida dedicada à Virgem de Nazaré.

Atualmente, muito se especula acerca deste Círio, entre as complexidades do conceito de Memória e os mitos que daí surgem.

O Círio pode ser descrito como um agrupamento de fiéis de uma determinada área geográfica que se deslocavam anualmente ao respetivo Santuário. A organização desta peregrinação estava a cargo das irmandades que mantinham esta devoção. Estes Círios materializavam-se num símbolo comum, ou seja, uma bandeira, e em velas de grandes dimensões decoradas, que seriam deixadas como oferenda no referido Santuário.

Temos como exemplo a descrição do Círio de Coimbra oferecido ao Santuário da Nazaré no ano de 1628 onde este se encontrava guardado dentro de uma caixa estando “mui diferente do que veio, porque todos estes nichos e vãos estavam cheos de figuras dos mistérios da Virgem Senhora Nossa, em tanta perfeição que se espantaram muitos oficiais primos nesta arte” contendo também “as armas da cidade e milagre do cavaleiro com esta Santa Imagem”. Esta descrição alude à riqueza e aparato do Círio deixado por Coimbra ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré.

Aqui encontramos também a referência que o Círio de Coimbra visitava o Santuário da Nazaré no dia 15 de Agosto “senão de dous em dous anos, pela larga distancia do caminho, que são daqui desassete leguas”. É digno de nota que “entram no Sítio com uma rica bandeira que trás a Imagem da Senhora, cavaleiro, penedo e veado pintado, todos em seus rocins e éguas do campo, e algumas vezes passam de cincoenta homens de cavalo, afora cargas de mulas com fato e mantimento e outras com as molheres dos oficiais e assi entram com charamelas, e dão volta à igreja”.

Sabemos que primeiro faziam “as festas que fazem aqui, na praça de Coimbra” e depois partiam em direção à Nazaré.

De realçar também que “os de Coimbra correm véspera de Nossa Senhora, pela manhã, canas em seus rocins e éguas, com tanto adereço e concerto que podem fazer inveja a muitos que as correm em fermosos ginetes”

Podemos, portanto, observar que o Círio de Coimbra sempre constituiu uma realidade devocional intrínseca à Cidade de Coimbra, sendo uma manifestação em que muitos dos seus habitantes se reveem.

É sabido que, por volta de 1745, devido às desordens entre os peregrinos, o Círio de Coimbra cessou a sua peregrinação ao Sítio da Nazaré, deslocando-se a romaria para Nazareth da Ribeira, às portas da Cidade de Coimbra.

Neste contexto, é pertinente destacar o belíssimo Ex-Voto de Manoel Cardoso, presente na sacristia da Igreja Matriz de Ribeira de Frades, que documenta a vinda do Círio a Nazareth da Ribeira nos finais do século XVIII.

Esta tradição manteve-se até 1834, quando a romaria foi suprimida devido à Extinção das Ordens Religiosas. No entanto, a romaria seria retomada em 1840, com a entrada de Miguel António de Brito como pároco de Nazareth da Ribeira, que acumulava também a função de presidente da Junta de Paróquia.

Assim, podemos afirmar que teve início a Festa em Honra de Nossa Senhora da Nazaré em Ribeira de Frades tal como a conhecemos hoje. Na manhã do dia 15 de agosto, as comunidades deslocam-se ao Real Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra para, simbolicamente, receberem o Círio. Este é então conduzido até Ribeira de Frades para a celebração dos ofícios litúrgicos da festa mariana, regressando ao final do dia a Santa Cruz. Este percurso mantém-se fiel ao seu passado, como aqui descrito, perpetuando a presença de equídeos, transportes decorados com motivos florais e a componente musical, até aos nossos dias.